10. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE 25.7.12

1.  PROVA DE BARBEIROS
2. ARMAS DO BEM

1.  PROVA DE BARBEIROS

Cientistas criam carro que desvia de obstculos sem a interveno do motorista e do passo decisivo para a chegada dos veculos que se dirigem sozinhos 
Juliana Tiraboschi

DESPERTADOR - Sistema de montadora europeia monitora o sono do motorista e indica a hora de parar
 
O motorista acorda, se arruma, entra no carro e diz toca para o escritrio. Enquanto o automvel se desloca sem ningum ao volante, o condutor toma um caf, l o jornal e checa os e-mails. Tudo isso sem riscos de acidentes ou multas. Esse roteiro deixar de ser fico a partir do momento em que os veculos autnomos ocuparem as ruas. E os cientistas acabam de dar um passo gigante para que esse dia chegue o quanto antes. 

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em ingls) criaram um sistema capaz de fazer o carro desviar sozinho de um poste, por exemplo. O veculo  equipado com cmeras e um telmetro (aparelho que mede distncias) a laser, para identificar obstculos. Tambm conta com GPS, acelermetros e um giroscpio para avaliar o sentido de direo e a velocidade. O sistema foi testado cerca de 1.200 vezes e falhou em 25% delas. Segundo Sterling Anderson, doutorando no MIT e lder da pesquisa, os erros foram causados por problemas nos sensores, que no eram de grande qualidade. Mesmo assim, eliminamos 75% das colises. Com um oramento maior,  possvel alcanar os 100%, diz. O equipamento foi montado em dois veculos. Um tinha motorista. Outro, sem ningum ao volante, foi desenvolvido com a empresa Quantum Signal. 

At alguns anos atrs, as novidades mais bem-vindas na segurana automotiva eram os freios ABS e os airbags. Agora, a tendncia  apostar em dispositivos de para-choque, ou seja, aqueles que evitam colises, geralmente pela reduo automtica da velocidade. No futuro, a grande inovao ser representada pelos sistemas de direo, ou seja, aqueles em que h a possibilidade de permitir que o veculo vire para um lado ou desvie de um objeto sozinho, como  o caso do experimento do MIT. O passo seguinte, ento, ser a automao total. O Google j criou um carro que se dirige sozinho. Em maio deste ano, a empresa conseguiu uma licena do Departamento de Trnsito do Estado de Nevada, a primeira dos EUA emitida para um carro que no precisa de motorista.

Mas, para que o carro autnomo se torne comercial, ainda vai levar um bom tempo. Antes  preciso desenvolver algumas tecnologias, baratear custos e promover melhorias nas estradas, como padronizao na sinalizao, principalmente das faixas que dividem as pistas. Nos anos 1970, se um pneu estourava e a pessoa no tinha habilidade ao volante, ela capotava o carro, diz o engenheiro mecnico Luiz Carlos Gertz, pesquisador e professor da Universidade Luterana do Brasil (RS). Hoje, isso no acontece. Geralmente os acidentes ocorrem por falhas humanas, como excesso de velocidade, sono, falar ao celular, etc. O carro autnomo melhoraria muito a segurana, afirma. 

Mas tanta tecnologia para socorrer os barbeiros no pode deixar os motoristas mais relapsos, agressivos e excessivamente confiantes no poder de seu carro corrigir seus deslizes?  verdade que novos dispositivos deixam as pessoas menos cuidadosas, mas isso no  razo para deixarmos de desenvolver sistemas que salvam vidas, diz Sterling Anderson, do MIT. Ou seja, em vez de aprender com seus erros correndo o risco de se acidentar, os motoristas sero educados com luzes, sirenes, vibraes no banco ou tendo que se conformar em entregar o controle para algum mais habilidoso ao volante: seu prprio carro.


2. ARMAS DO BEM

Os mesmos laboratrios que no passado desenvolveram armamentos nucleares de destruio em massa hoje produzem dados que ajudam a salvar o planeta e quem vive nele
Larissa Veloso

 NOVOS TEMPOS - Criado para desenvolver armas nucleares, hoje o laboratrio Lawrence Livermore, nos EUA, usa seus supercomputadores para estudar as mudanas climticas
 
As bombas atmicas lanadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki no fim da Segunda Guerra Mundial mataram diretamente mais de 150 mil pessoas. Depois que a nuvem em forma de cogumelo se dissipou, nunca mais as pessoas viram os testes atmicos como instrumento para gerar algo positivo. Mas um historiador da Universidade de Michigan, nos EUA, mostra como a indstria de armas nucleares migrou da destruio em massa para a proteo do planeta. Em artigo no Bulletin of the Atomic Scientists, Paul Edwards afirma que, se no fossem os estudos para o desenvolvimento de armas, a cincia climtica estaria engatinhando. 

Nos primeiros testes de grande magnitude nos anos 1950, contaminaes provocadas pela disperso de material radioativo levantaram o alerta, e os cientistas comearam a vigiar os ventos. Esses eventos levaram  criao de redes de monitoramento. Uma das redes estabelecidas pelo Laboratrio de Segurana e Sade da Comisso de Energia Atmica em 1951 foi depois ampliada para cerca de 200 estaes de monitoramento climtico da Fora Area americana ao redor do mundo, explica Edwards. Com o crescimento das instalaes, o homem passou a entender cada vez mais a dinmica da atmosfera, o que  crucial para monitorar o clima.

OBSOLETO - Desde os anos 1990, os russos tentam comprar supercomputadores. Sem as mquinas, os laboratrios do pas esto de fora da onda verde
 
Rede montada para garantir que os pases no faam testes com bombas nucleares, a CTBTO (Comprehensive Nuclear-Test-Ban Organization, na sigla em ingls) ajudou a amenizar uma catstrofe ambiental. A organizao previu a disperso de material radioativo provocada pelo acidente na usina Fukushima, no Japo, em maro do ano passado. Os dados coletados pela CTBTO nas mais de 280 estaes de monitoramento ao redor do mundo ajudam a aumentar o volume de material usado nos modelos climticos. Todo processo que permite coletar dados reais do comportamento do material na atmosfera  til. E todo modelo matemtico (como os usados para estudar o clima) precisa de dados para ser validado, afirma Luiz Fernando Conti, assessor da diretoria de pesquisa e desenvolvimento da Comisso Nacional de Energia Nuclear.
 
H um benefcio extra por conta do redirecionamento desses laboratrios. Com o fim da Guerra Fria, caso continuassem apenas a desenvolver armas, os cientistas e as mquinas estariam sem emprego. Nossos computadores foram originalmente desenvolvidos para testar armas nucleares. Agora so usados para estudar a cincia da mudana climtica refora a porta-voz do Laboratrio Nacional de Lawrence Livermore, na Califrnia, Anne Stark. A transio manteve o quadro de funcionrios inalterado.

DESASTRE - Agentes em Fukushima ajudam a analisar o vazamento da usina. Equipamentos usados para prevenir uma guerra nuclear ajudaram na conteno da catstrofe
 
Sobre essa troca de funo, Edwards deixa um recado nas palavras finais de seu artigo. Hoje, os laboratrios construdos para criar o mais temvel arsenal em toda a histria esto fazendo o que podem para impedir outra catstrofe  no uma causada por governos em guerra, mas por bilhes de indivduos normais vivendo vidas comuns dentro de uma economia energtica que precisamos reinventar. Transformar um sistema de destruio em massa em ferramenta para melhorar nossas condies de vida  um promissor primeiro passo.
